No mar, existe um momento que alguns têm a oportunidade de ver, mas poucos conseguem explicar. O intervalo perfeito entre o que ainda não aconteceu e o que já está em curso, o espaço invisível onde o corpo sente a vida perto de si através da força da onda. Aqui é onde tudo começa e encontra a nossa essência: a arte em movimento, a fotografia no mar e a experiência de estar vivo sem pressa.
Antes da onda quebrar, não existe espetáculo maior que o privilégio de enxergar seu movimento, sentindo a água em um corpo inteiramente presente com respiração alinhada ao ritmo do oceano. O surf, quando também vivido fora da lógica da performance, cria um diálogo silencioso entre o ser humano e a natureza, firmando um acordo sensível onde ninguém controla, apenas confia.
Depois de meses fotografando no mar, entendemos que esse instante que antecede o movimento é o nosso território mais fértil para uma fotografia autoral e autêntica, porque ele vem carregado de intenção. É ali que o surfista escolhe remar ou esperar, que o corpo se organiza, que o olhar se firma no horizonte. Para nós, fotografar dentro d’água é acompanhar esse processo de decisão com atenção e respeito, sem interferir no ritmo natural do que está prestes a acontecer.

Na prática, esse momento exige leitura constante do mar. Corrente, vento, formação das séries, luz e posição do surfista precisam ser percebidos quase ao mesmo tempo. O fotógrafo não está apenas observando, está inserido no ambiente, lidando com a água em movimento, ajustando o corpo, a respiração e o enquadramento enquanto tudo acontece. Não existe pausa técnica fora do fluxo. Existe presença, adaptação e escuta.
A nossa lente captura a simplicidade do que é extraordinário por sua própria existência e, nessa onda, suspendemos o tempo e libertamos a criatividade. O instante antes da onda quebrar revela a coragem de se entregar ao inesperado e o que vem em seguida sempre surpreende.
A fotografia de surf contemporânea ultrapassa as camadas do registro esportivo e documenta a relação entre o surfista, a água e o tempo. Ela não busca o “momento perfeito”, pois acredito que tudo já é perfeito pela sua própria naturalidade. O que se revela ali é a coragem, o fluxo, a impermanência e o desapego de quem escolhe estar no mar.
Antes da onda quebrar, o corpo passa por um estado de suspensão. O coração desacelera e dispara, a respiração vai buscando se ajustar, os músculos esquentam. Esse estado é o mesmo que antecede a criação artística, a satisfação silenciosa de sentir uma manifestação prestes a se concretizar. Mas o movimento, tão celebrado na estética da Sea On Colors, não é apenas físico. Ele só existe porque nasce de dentro, e se expressar é a única alternativa.
Existe também uma confiança construída entre quem surfa e quem fotografa. Um entendimento que dispensa comandos, poses ou pedidos. O fotógrafo aprende a reconhecer o tempo do outro, a respeitar o espaço, a saber quando se aproximar e quando apenas acompanhar à distância. Essa relação é o que permite que a imagem exista sem interferir na experiência, preservando a verdade do momento.
O mar é um espelho instável, e a lente que se propõe a registrar esse encontro precisa estar aberta para o imprevisível, pois a arte que nasce desse instante não é decorativa. Ela carrega camadas, emociona quem vê, provoca e instiga. Esse é o efeito que a manifestação artística causa quando nasce de uma vivência real.

Em um mundo acelerado, onde todos os estímulos brigam pela sua atenção, o instante antes da onda quebrar nos faz perceber que a única que merece o seu olhar atento é a vida em movimento, a onda para quebrar, a natureza viva.
Existe uma inteligência ancestral e biologicamente tecnológica no corpo de quem entra no mar. Mesmo sem nomear, ele percebe mudanças sutis na água, no vento, na luz e na textura da onda. Fotografar surf é, antes de tudo, confiar nessa inteligência, tanto do fotógrafo quanto de quem é fotografado. É permitir que o encontro aconteça sem forçar um resultado , normalmente, o resultado do que é feito com a alma não precisa ser explicado.
A arte em contato com a natureza nos lembra que nem tudo precisa ser controlado para ser belo, especialmente a criação artística. Muitas vezes, é justamente a ausência de controle que revela a potência do momento. O mar não se adapta à lente. É a lente que aprende a dançar com o mar, em um movimento que não é ensaiado, mas vivido no improviso, na escuta e na entrega.
O Next Swell nasce com a vontade de transmitir exatamente essa sensação. Um espaço para falar do que antecede, do que está em movimento e do que sempre retorna: da onda, da água, do ser humano, da vida acontecendo. Aqui, tudo está entrelaçado, porque é no instante anterior, nesse intervalo quase invisível, que a vida se revela. É ali que a Sea On Colors escolhe estar. É dali que nasce cada clique.